Em uma economia em que a inteligência artificial acelera parte da execução, EJs podem se tornar espaços ainda mais relevantes para aprender a lidar com clientes, incertezas e decisões reais
Entre uma ideia de sala de aula e uma solução que funciona fora dela existe um caminho cheio de dúvidas: entender o problema do cliente, definir escopo, negociar prioridades, adaptar uma proposta e responder pela entrega. É nesse terreno que empresas juniores podem ganhar novo peso no ecossistema capixaba, especialmente quando ferramentas de inteligência artificial passam a acelerar pesquisas, textos, apresentações, planilhas e análises iniciais.
Empresas juniores são associações sem fins lucrativos geridas por estudantes de graduação, que prestam serviços ligados à sua área de formação, formando talentos e pontes entre as universidades e o mercado. Mais do que uma experiência extracurricular, elas colocam estudantes diante de demandas concretas, prazos, reuniões, orçamento, trabalho em equipe e decisões que não vêm prontas em um enunciado acadêmico. Para muitos, pode ser o primeiro contato com a cultura de inovação.
A inteligência artificial, nos dias de hoje, já altera parte da rotina de todos os lugares, inclusive das EJs. Ela pode encurtar etapas de pesquisa, organizar informações, apoiar rascunhos e ampliar alternativas. Mas não substitui a leitura de contexto, a escuta de quem contrata, a definição do que realmente precisa ser resolvido nem a responsabilidade por uma recomendação que será aplicada fora da universidade. O valor da empresa júnior, nesse cenário, pode estar menos na velocidade da execução e mais na formação de quem aprende a transformar conhecimento em resposta útil.
O Espírito Santo reconhece essa função e, em 2025, lançou, pela Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do ES (Fapes), um edital de R$ 1 milhão para apoiar empresas juniores federadas. Entre as propostas habilitadas estavam projetos da CT Junior, da Ufes, em Vitória, voltados a estratégias organizacionais e digitais e à automatização de processos de precificação, além de iniciativas ligadas à agricultura familiar, educação profissional e gestão de obras em outros territórios capixabas.
A experiência em uma EJ aproxima a formação universitária de uma prática que será cada vez mais valorizada: formular boas perguntas, testar hipóteses, revisar respostas, negociar caminhos e ajustar soluções diante de um cliente real. A empresa júnior não é uma startup, mas pode funcionar como laboratório de repertório para futuros empreendedores, gestores, profissionais de tecnologia e inovadores dentro de empresas.
Estudantes e docentes devem cuidar para que o uso de ferramentas de inteligência artificial não caia apenas na ideia de “quem faz uma tarefa mais rápido”. As automatizações nas EJs podem ser uma oportunidade para formar pessoas capazes de usar a tecnologia com critério e, principalmente, de entender a fundo problemas que nenhuma ferramenta consegue resolver sozinha.