Saber trabalhar com IA será uma nova alfabetização profissional?

Letramento em inteligência artificial envolve fazer o uso de dados de forma ética, formular boas perguntas, verificar respostas e decidir onde a ferramenta pode ajudar sem substituir o julgamento humano

No Espírito Santo, o debate sobre inteligência artificial começa a ganhar novos contornos e passa a ser tratado de forma mais criteriosa por empresas, startups, instituições de ensino e setor público. Mais do que acompanhar novas tecnologias, organizações precisam preparar pessoas para trabalhar com sistemas que já interferem diretamente em múltiplas funções, como análise, atendimento, comunicação, gestão, pesquisa e produção de conteúdo. Além de adotar IA, organizações precisam desenvolver repertório e capacitar equipes para usá-la bem. Sem isso, uma ferramenta criada para acelerar tarefas pode reduzir produtividade e comprometer a qualidade das entregas.

Letramento em IA não significa aprender a programar modelos ou dominar ciência de dados. Significa saber formular pedidos com contexto, avaliar a qualidade de uma resposta, reconhecer limites da máquina, proteger informações sensíveis e revisar o que será usado em uma entrega, análise ou decisão. É uma competência mais próxima da leitura crítica e da responsabilidade profissional do que da familiaridade superficial com ferramentas. Diferente de aprendizados sobre o pacote office, usar IA demandará mais critérios.

O movimento aparece nas empresas brasileiras. A TIC Empresas 2025, divulgada pelo Cetic.br em 2026, mostra que o uso de IA passou de 13% para 17% entre 2024 e 2025. Entre pequenas empresas, subiu de 10% para 15%; entre grandes, de 38% para 50%. A expansão indica que a tecnologia tende a atravessar estruturas organizacionais de tamanhos e setores distintos, especialmente negócios que precisam ganhar eficiência com equipes menores.

Nesse cenário, o desafio das lideranças não é apenas liberar ferramentas. É criar condições para que elas sejam usadas de forma apropriada e produtiva: definir o que pode ser automatizado, quais informações exigem proteção, que tarefas precisam de revisão humana e como erros serão corrigidos. Capacitação contínua e requalificação de equipes ganham relevância para que o uso da IA não fique restrito a tentativas individuais, gerando retrabalho e desperdício de recursos em vez de ganhos consistentes.

A nova alfabetização profissional talvez não seja saber “usar IA” em sentido genérico. Será saber trabalhar melhor com ela: perguntar, checar, adaptar, decidir e responder pelo resultado. Para o Espírito Santo, isso pode influenciar não apenas a produtividade de negócios e instituições, mas a qualidade das soluções que o estado pretende desenvolver em áreas como indústria, agro, educação, saúde, serviços e cidades.