Repertório cultural também alimenta a inovação

Memória local, referências diversas e criatividade ajudam a transformar identidade em produtos, negócios e novas formas de resolver problemas

No Espírito Santo, inovação não nasce apenas de laboratório, tecnologia ou modelo de negócio. Ela também pode começar no repertório de quem observa o território, reconhece seus símbolos e transforma referências culturais em produtos, serviços e experiências. No quarto trimestre de 2025, a economia criativa capixaba somava 201,6 mil pessoas no estado, segundo o boletim de Economia Criativa do Instituto Jones dos Santos Neves. Esse dado ajuda a dimensionar uma atividade que vai além da produção artística.

Gastronomia, design, audiovisual, moda, artesanato, tecnologia, comunicação e arquitetura operam em torno de ideias, linguagem, memória e capacidade de criar valor a partir de referências compartilhadas. Em muitos desses setores, o desafio não é apenas inventar algo novo, mas encontrar uma leitura contemporânea para o que já existe no território. Criar, transformar, inovar.

A economia criativa capixaba tem, afinal, peso empreendedor. No fim de 2025, 33,6% dos trabalhadores do segmento atuavam por conta própria. E a participação de empregadores também era maior no setor criativo, 7,9%, contra 4,2% em setores não criativos. O dado sugere um campo em que criação, trabalho autônomo e abertura de negócios caminham juntos e trazem inúmeras possibilidades regionais.

A panela de barro, a moqueca capixaba, os saberes tradicionais, as festas populares, os centros históricos e as matrizes indígenas, africanas, italianas e pomeranas podem funcionar como matéria-prima simbólica para inovação. Isso não significa transformar cultura em adereço de marca. Significa entender que repertório local pode ajudar negócios e projetos a fazerem perguntas menos genéricas: que história esse produto conta, que público ele reconhece, que experiência ele oferece e que vínculo cria com o lugar. Pode também ajudar a criar metodologias ou ferramentas inspirados nas particularidades de cada fazer.

Entender como o próprio repertório cultural influencia o negócio pode se desdobrar em uma fonte para novas ideias. Afinal, a cultura amplia o repertório de quem cria. E, em inovação, repertório é o que permite enxergar (ou construir!) novas oportunidades.

Foto: Setur-ES