Quanto da ciência produzida no ES pode se transformar em negócios?

Exemplos de deeptechs capixabas mostram oportunidades de mercado e possibilidades de inovação local

A startup Aumo, incubada no Espaço Empreendedor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), lançou em 2023 uma plataforma de inteligência artificial para empresas, sendo a primeira do Espírito Santo com uma rede neural do tipo generativa, treinada e customizada no Estado usando os recursos do Atena, um supercomputador da universidade. Ela assinou, então, um contrato com o Banestes, que batizou a solução de Sab.IA e a implantou na rede de agências e na área administrativa do banco. A tecnologia nasceu 100% capixaba, dentro de uma universidade pública, e chegou ao mercado com cliente real e contrato assinado.

Esse é o percurso que define uma empresa de base tecnológica profunda (deeptech): ciência aplicada que atravessa o período entre descoberta e receita e chega ao mundo real com função econômica concreta. A Aumo não é o único exemplo. A Nanolabs, também incubada no Espaço Empreendedor da Ufes, desenvolveu um kit de baixo custo para detecção de Salmonella, com resultado mais rápido que os testes disponíveis no mercado. A Hippocampus produz cavalos-marinhos em laboratório para o mercado internacional, unindo pesquisa de conservação e bioeconomia marinha, com operação em Aracruz. Três empresas diferentes, operações distintas, mas uma mesma origem: pesquisa científica capixaba que encontrou caminho para o mercado.

O Brasil tem mais de 950 empresas de base tecnológica profunda, segundo o Deep Tech Radar Brasil 2025. Quase metade atua em biotecnologia e agronegócio. O ciclo de maturação dessas é mais longo: entre a descoberta científica e a primeira receita, o caminho pode levar até dez anos. Por isso, o ecossistema de suporte, com aceleração, capital paciente e conexão com mercado, é tão decisivo quanto a ciência em si.

O Espírito Santo tem a Ufes, o Ifes e outros centros de pesquisa com produção científica ativa. Os casos da Aumo, Nanolabs e Hippocampus mostram que a estrutura por aqui já funciona. Quantas outras pesquisas em andamento no estado estão a uma conexão de distância de se tornarem um negócio? E quais outras poderão surgir nos próximos anos?